O governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), declarou, em entrevista à RedeTV!, que não voltaria a usar o boné de apoio ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, além de reafirmar sua total confiança no sistema de urnas eletrônicas brasileiro e negar os indícios de que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) tenha influenciado a imposição de sobretaxas comerciais norte-americanas contra produtos do Brasil.
A declaração sobre o símbolo político norte-americano ocorre em meio ao desdobramento de atritos comerciais internacionais. Em janeiro de 2025, Tarcísio havia gravado um vídeo celebrando a posse de Donald Trump utilizando o boné vermelho com o slogan “Make America Great Again”. Meses depois, o governo dos EUA anunciou a aplicação de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, vinculando publicamente a medida ao tratamento dispensado a Jair Bolsonaro (PL) e a decisões do Judiciário do Brasil. Subsequentemente, em julho deste ano, Washington adotou uma nova tarifa de 25%, concluindo uma investigação comercial iniciada em 2025.
Questionado durante a entrevista sobre o episódio do acessório, Tarcísio buscou limitar o ato àquele momento específico. “Eu coloquei o boné naquela situação da posse”, afirmou o governador, assegurando que não repetiria a atitude nos dias de hoje. “Não, mas eu acho que isso não tem nada a ver com aquilo que vem depois”, completou, minimizando a relação direta entre o gesto e as sanções subsequentes.
Atuação de Eduardo Bolsonaro e diplomacia comercial
A interferência de aliados bolsonaristas nos Estados Unidos também foi tema da sabatina. Eduardo Bolsonaro, que reside nos EUA desde 2025, chegou a declarar em entrevista à Folha de São Paulo que mantinha atuação no país para pressionar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e que não se arrependia de articular retaliações contra o Brasil. Na mesma ocasião, Eduardo classificou como um “desrespeito” a postura de Tarcísio de tentar negociar diretamente uma saída para as tarifas junto à Embaixada norte-americana.
Tarcísio, contudo, desqualificou a influência atribuída ao parlamentar licenciado sobre as determinações da Casa Branca. “O Eduardo não teria peso para tomar decisão pelo governo americano. Isso é narrativa”, pontuou o governador. Para ele, as sobretaxas decorrem de dinâmicas econômicas e geopolíticas próprias. “Cabe à diplomacia negociar”, resumiu, frisando que o cenário envolve interesses comerciais mútuos de ambos os países.
No âmbito estadual, o chefe do Palácio dos Bandeirantes detalhou as ações de contenção adotadas para proteger a economia paulista. Segundo Tarcísio, sua gestão promoveu reuniões com os setores produtivos atingidos e autorizou a liberação de créditos acumulados de ICMS para reforçar a liquidez e o caixa das empresas afetadas. O governador adiantou que, caso o bloqueio e as taxas impostas pelos EUA se prolonguem, o estado continuará garantindo suporte por meio de linhas de crédito e liberação de valores tributários retidos.
Ele destacou ainda os resultados da atuação direta do governo paulista com o setor privado internacional. “A paradiplomacia funcionou muito bem”, comemorou, apontando que a articulação teria garantido a inclusão de produtos paulistas e nacionais na lista de exceções dos Estados Unidos, beneficiando áreas estratégicas como aviação, papel, café solúvel e suco de laranja.
Urnas eletrônicas e cenário eleitoral
Em um contraponto às narrativas contundentes de setores da extrema direita e de aliados bolsonaristas contra o sistema eleitoral, Tarcísio reiterou de forma categórica sua fé no processo de votação nacional. “Eu confio nas urnas. Se não confiasse, não era candidato. E tem muita evidência para acreditar que a coisa funciona”, declarou. O governador evitou criticar a postura anterior de aliados sobre o tema e buscou virar a página do debate. “Acho que eu já falei o que tinha que falar sobre isso. Acho que a gente tem que falar de projeto”.
A entrevista foi concedida três dias após a oficialização da candidatura de Tarcísio à reeleição em convenção estadual. O evento contou com a presença do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República. No palanque, Tarcísio manifestou gratidão e declarou seu afeto por Jair Bolsonaro, concentrando sua fala nos desafios do estado de São Paulo, sem tecer ataques diretos ao presidente Lula (PT) ou ao Judiciário.
Na entrevista, o governador explicou que defendeu internamente que seu partido, o Republicanos, formalizasse uma coligação nacional em torno do nome de Flávio Bolsonaro. No entanto, a direção nacional da legenda optou pela neutralidade na disputa presidencial, acompanhando a posição da maioria dos diretórios estaduais. “A minha posição foi de apoio ao Flávio Bolsonaro, foi a posição que a gente externou para a presidência do partido”, revelou. Tarcísio reconheceu que a falta de coligação formal reduz a inserção do aliado na propaganda de rádio e TV, mas atenuou os danos: “Claro que tem um prejuízo à campanha do Flávio em função do tempo de TV, mas eu não acredito que seja um prejuízo muito importante”.
Investigação sobre o filme “Dark Horse”
Tarcísio de Freitas também foi questionado sobre os desdobramentos do caso “Dark Horse”, projeto audiovisual sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. O senador Flávio Bolsonaro confirmou ter solicitado recursos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme, negando o recebimento de qualquer vantagem indevida ou cometimento de ilegalidades. O destino desses repasses é alvo de inquérito na Polícia Federal, autorizado pelo ministro André Mendonça, do STF.
O governador paulista relatou ter cobrado explicações públicas de Flávio Bolsonaro assim que as denúncias surgiram, argumentando que “o eleitor está muito cansado dos escândalos de corrupção”. Contudo, deu o assunto por encerrado. “Ele, ao longo do tempo, veio dando esses esclarecimentos e eu acho que agora a gente tem que falar em projeto para o Brasil”, sustentou. Tarcísio garantiu que o caso não guarda nenhuma relação com o governo de São Paulo ou com a sua estrutura de campanha, ressaltando que sua gestão jamais teve agendas com Vorcaro e que os institutos estaduais de previdência não adquiriram títulos CDBs do Banco Master.
Concessões ferroviárias e greve na CPTM
A agenda de concessões do transporte sobre trilhos do governo paulista também entrou em pauta no mesmo dia em que uma paralisação de ferroviários afetou o funcionamento das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Os ramais atingidos transportam diariamente cerca de 785 mil passageiros em dias úteis. O movimento grevista foi convocado em protesto contra o plano de concessão das linhas à iniciativa privada e contra falhas operacionais registradas em ramais que já foram repassados à gestão privada, resultando em estações lotadas, atrasos severos e interrupções parciais no sistema.
O governador defendeu a manutenção do cronograma de desestatizações e pediu tempo para a consolidação dos resultados. Argumentou que os contratos operacionais com as concessionárias privadas estão em fase inicial e prometeu aportes em tecnologia de sinalização, aquisição de novos trens e melhorias de acessibilidade para reduzir o tempo de espera nas estações. “Seria muito injusto considerar o dia de hoje. A gente está começando essa jornada”, declarou. Antes da entrevista, Tarcísio já havia classificado a greve dos ferroviários como um ato de “instrumentalização política”, garantindo que a paralisação não alterará os planos de concessão da malha ferroviária do estado.
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Brasil 247