A França registrou uma morte, mais de 500 policiais feridos e cerca de 1.800 detenções após uma jornada de protestos que mobilizou mais de 550 mil pessoas no sábado (17). As manifestações contra o aumento do custo de vida, a desigualdade social e a redução dos serviços públicos atingiram dezenas de cidades, com confrontos entre grupos de manifestantes e forças de segurança, além de saques e incêndios. O balanço, divulgado neste domingo (18), evidencia a dimensão da crise social que pressiona o governo do presidente Emmanuel Macron.
Organizadores estimaram a participação de até 800 mil pessoas, enquanto o Ministério do Interior contabilizou aproximadamente 550 mil. A maioria participou de atos pacíficos, mas grupos envolvidos em confrontos provocaram danos a estabelecimentos comerciais, edifícios públicos e equipamentos urbanos.
A morte ocorreu em Paris, onde um manifestante sofreu uma parada cardíaca durante os protestos. Na capital francesa, as autoridades efetuaram 855 detenções, quase metade do total nacional. O governo também contabilizou centenas de agentes feridos durante os episódios de violência.
As manifestações ganharam força após um mês de mobilizações estudantis contra a falta de professores e as condições de funcionamento de escolas, principalmente em bairros periféricos. O movimento ampliou suas reivindicações e passou a incorporar críticas à inflação, à desigualdade e às medidas de contenção dos gastos públicos.
A convergência dessas demandas levou milhares de pessoas às ruas de Paris, Marselha, Bordeaux, Lille, Estrasburgo e outras cidades. Ao longo do sábado, confrontos interromperam parte das manifestações e provocaram incêndios, depredações e ataques a prédios administrativos.
Incêndio destrói parte de prefeitura histórica em Limoges
Um dos episódios de maior destruição ocorreu em Limoges, no centro-oeste da França. Um incêndio atingiu a prefeitura municipal, edifício histórico inaugurado em 1883, e comprometeu parte de sua estrutura.
O fogo começou depois que participantes dos distúrbios incendiaram um veículo da polícia municipal nas proximidades do prédio. Em seguida, indivíduos mascarados entraram na prefeitura e atearam fogo ao interior do imóvel. As chamas alcançaram a cobertura, que desabou sobre os pavimentos inferiores.
As equipes de emergência conseguiram preservar parte do edifício, mas o incêndio provocou danos estruturais que exigirão obras de recuperação.
O prefeito de Limoges, Guillaume Guérin, cobrou apoio financeiro do governo francês para reconstruir o prédio. Em entrevista à Reuters, o dirigente municipal ameaçou deixar o cargo caso a cidade não recebesse 1 milhão de euros, aproximadamente R$ 5,69 milhões, para custear os reparos. “Houve uma intenção clara e premeditada de incendiar a prefeitura, e as pessoas que estavam lá dentro temeram por suas vidas”, afirmou o prefeito.
Saques e destruição atingem Paris e outras cidades
Em Bordeaux, os distúrbios provocaram prejuízos a estabelecimentos comerciais e atingiram instalações ligadas à administração pública. Grupos mascarados invadiram a residência oficial de uma representante do governo na região. O prefeito Thomas Cazenave informou que aproximadamente 100 lojas sofreram saques durante os episódios de violência.
Na capital francesa, equipes municipais iniciaram neste domingo a retirada de destroços e a limpeza de ruas que registraram confrontos. Vitrines quebradas, bicicletas incendiadas e pichações marcaram áreas comerciais e pontos de concentração dos manifestantes.
Os primeiros atos em Paris transcorreram de forma pacífica, mas grupos entraram em confronto com policiais durante o avanço das mobilizações. As forças de segurança realizaram detenções e adotaram medidas para dispersar participantes dos distúrbios.
Outras cidades, como Lille, Marselha e Estrasburgo, também começaram a avaliar os prejuízos. Equipes de limpeza e manutenção trabalharam na recuperação de espaços públicos e na remoção de materiais que permaneceram nas ruas após os protestos.
Macron promete punições e convoca reunião de governo
Diante dos confrontos, o presidente francês, Emmanuel Macron, condenou os ataques a edifícios públicos e estabelecimentos comerciais. O chefe de Estado afirmou que não existe “espaço para violência na República” e defendeu a responsabilização dos envolvidos.
“Aqueles que depredaram, atacaram as prefeituras e o comércio, e saquearam até mesmo nossos prédios públicos, serão processados e punidos”, escreveu Macron na rede social X.
O presidente convocou uma reunião com integrantes de seu governo para este domingo e programou um pronunciamento à população francesa para a noite, em meio à pressão política provocada pelas manifestações.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu declarou que o Executivo não aceitará intimidações e atribuiu parte dos episódios de violência a grupos que classificou como integrantes da “extrema esquerda”, além de pessoas envolvidas em atividades criminosas.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, também responsabilizou organizações radicais por ataques contra prédios públicos e forças policiais. Segundo o governo, pessoas interessadas em saquear estabelecimentos comerciais aproveitaram os confrontos para ampliar os danos.
Governo anuncia apoio a comerciantes após prejuízos
Na área econômica, o ministro Roland Lescure anunciou medidas de apoio aos comerciantes que sofreram perdas durante os distúrbios. O integrante do governo afirmou que os responsáveis pelos danos deverão arcar com os custos da destruição. O prefeito de Marselha, Benoît Payan, também anunciou ajuda financeira emergencial para estabelecimentos atingidos pelos confrontos.
As autoridades municipais começaram a reunir informações sobre os prejuízos e a identificar os imóveis que precisarão de intervenções. Além dos danos ao comércio, os incêndios afetaram estruturas públicas e exigiram operações dos serviços de emergência.
A dimensão dos acontecimentos ampliou a pressão sobre o governo Macron em um período de disputas políticas e insatisfação com o poder de compra da população. A França se aproxima das eleições presidenciais de 2027 em meio ao debate sobre inflação, orçamento público e financiamento de serviços essenciais.
Crise social francesa acompanha protestos em outros países europeus
A mobilização francesa ocorreu em um contexto de manifestações contra o custo de vida em diferentes países da Europa. No mesmo sábado, atos em Portugal, Itália, Bélgica e Espanha também reuniram participantes insatisfeitos com os preços da moradia e outras despesas essenciais.
Na França, a ampliação das reivindicações estudantis para questões econômicas e sociais demonstrou a capacidade de articulação entre diferentes grupos da população. A insatisfação com a qualidade dos serviços públicos passou a integrar as cobranças relacionadas ao poder de compra e à distribuição dos recursos do Estado.
Com a limpeza das cidades em andamento e as autoridades avaliando os prejuízos, o governo francês enfrenta as consequências dos confrontos enquanto prepara sua resposta política às reivindicações que levaram centenas de milhares de pessoas às ruas.
Foto: Abdul Saboor/Reuters
Brasil 247