PF pede mais 90 dias para investigar possível crime financeiro de Flávio Bolsonaro no caso Dark Horse


A Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) mais 90 dias para investigar a participação do atual presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no financiamento de Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O pedido chegou ao ministro André Mendonça, relator do inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas envolvendo recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master.
A PF pediu a extensão do prazo depois que o período inicialmente previsto para a conclusão das diligências terminou em 10 de outubro. O inquérito começou em julho, após uma solicitação da corporação que recebeu parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). Flávio Bolsonaro está formalmente entre os investigados e nega irregularidades nas operações financeiras relacionadas ao filme. O pedido ainda depende de análise judicial.
A investigação busca determinar se os recursos que Vorcaro destinou ao projeto audiovisual seguiram efetivamente para a produção ou se financiaram outras atividades. Os investigadores também analisam transações realizadas por empresas ligadas ao ex-banqueiro e possíveis transferências para os Estados Unidos.
Embora André Mendonça seja o relator do procedimento, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, assumiu temporariamente a responsabilidade pelo processo em meio à crise envolvendo investigações relacionadas ao Banco Master.

Corrupção e lavagem de dinheiro
O ministro André Mendonça autorizou, em julho, a abertura de um inquérito para examinar as movimentações financeiras associadas à produção de Dark Horse. A PF identificou elementos que justificaram o aprofundamento das apurações sobre possíveis crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O procedimento envolve o senador Flávio Bolsonaro e Vorcaro.
A Procuradoria-Geral da República concordou com a instauração do inquérito, apontando a necessidade de esclarecer o percurso dos recursos e as circunstâncias das transferências.
A investigação ganhou publicidade em setembro, quando o STF divulgou documentos relacionados ao caso. A medida permitiu conhecer detalhes das suspeitas que levaram à abertura do procedimento criminal.
A condição de investigado não significa que Flávio Bolsonaro tenha cometido os crimes em apuração. A PF ainda precisa reunir os elementos necessários para esclarecer os fatos e apresentar suas conclusões.

Conversas revelaram pedido de Flávio Bolsonaro a Vorcaro
O episódio ganhou repercussão nacional em maio de 2026, quando vieram a público mensagens e áudios de conversas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro sobre o financiamento do longa-metragem.
Inicialmente, o senador negou que tivesse solicitado dinheiro ao ex-controlador do Banco Master. Após a divulgação dos registros, o candidato do PL reconheceu ter procurado Vorcaro para tratar de recursos destinados ao filme sobre seu pai. O senador afirmou que a iniciativa envolvia financiamento privado e negou qualquer ilegalidade na operação.
A produtora responsável pelo projeto, Go Up Entertainment, recebeu recursos que, segundo os investigadores, precisam passar por rastreamento para identificar a origem, os intermediários e os beneficiários finais.
A proprietária da empresa, Karina Ferreira da Gama, afirmou em maio, em entrevistas à GloboNews e à TV Globo, que Vorcaro respondeu por mais de 90% do financiamento da cinebiografia.
Segundo a empresária, o orçamento executado até aquele momento alcançava aproximadamente R$ 65,7 milhões, equivalentes a US$ 13 milhões na cotação utilizada à época.
O próprio Flávio Bolsonaro reconheceu que o ex-banqueiro havia destinado pouco mais de US$ 12 milhões ao projeto. Os valores se tornaram um dos principais objetos das investigações conduzidas pela Polícia Federal.

Possível uso de recursos para financiar Eduardo Bolsonaro nos EUA
Uma das principais dúvidas dos investigadores diz respeito ao destino do dinheiro enviado ao exterior sob a justificativa de custear a produção de Dark Horse. A PF procura identificar se parte dos valores financiou despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que passou a viver nos Estados Unidos em fevereiro de 2025.
O ex-parlamentar negou ter recebido recursos de um fundo ligado a Daniel Vorcaro. Ele afirmou que sua condição migratória não permitiria esse tipo de operação financeira e declarou ter informado às autoridades americanas a origem dos recursos utilizados durante sua permanência no país.
As investigações também identificaram um contrato que mencionava Eduardo Bolsonaro como produtor-executivo da cinebiografia.
O ex-deputado afirmou que investiu US$ 50 mil no projeto e posteriormente recebeu a devolução do valor. Ele negou que o reembolso tivesse passado pelo fundo que recebeu dinheiro ligado ao antigo controlador do Banco Master.
Investigadores avaliam dividir o inquérito em etapas para concluir inicialmente as apurações mais avançadas sobre as operações de Vorcaro. O rastreamento das transferências internacionais representa um dos obstáculos enfrentados pela PF, diante da necessidade de cooperação com autoridades americanas.

Outra investigação apura R$ 2 milhões em emendas de Mario Frias
Paralelamente ao inquérito sob relatoria de André Mendonça, o ministro Flávio Dino conduz uma investigação relacionada a recursos públicos destinados a entidades vinculadas à empresária Karina Ferreira da Gama, responsável pela produção de Dark Horse.
A apuração começou depois que a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) solicitou ao STF uma investigação sobre a destinação de aproximadamente R$ 2 milhões em emendas parlamentares indicadas pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP). As transferências beneficiaram organizações ligadas à empresária, entre elas o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC).
A PF procura esclarecer se houve desvio de finalidade na aplicação dos recursos e se alguma parcela do dinheiro público financiou despesas relacionadas ao filme.
O deputado Mario Frias, que também participa da cinebiografia como roteirista e produtor-executivo, afirmou ao Supremo que não destinou as emendas para custear a produção cinematográfica.
A Go Up Entertainment, empresa responsável pelo longa-metragem, não integrou a relação de alvos dos mandados de busca expedidos nessa investigação.

Operação Make Up identificou movimentações financeiras sob suspeita
Em 10 de setembro, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram a Operação Make Up para aprofundar as apurações sobre o destino das emendas parlamentares. A ação cumpriu 49 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará, após autorização do ministro Flávio Dino.
O deputado Mario Frias e a empresária Karina Ferreira da Gama figuraram entre os alvos das diligências. Os investigadores apuram suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em procedimentos licitatórios.
Um relatório da PF identificou coincidências entre as datas de movimentações financeiras da produtora Go Up e os repasses de emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil.
A PF também passou a investigar a possibilidade de recursos públicos terem financiado despesas de hospedagem, alimentação e pagamentos a empresas durante o período de gravação do filme.
Outra operação financeira chamou a atenção dos investigadores: uma transferência de R$ 645,4 mil de Mario Frias para a produtora. A PF busca esclarecer a finalidade desse pagamento e sua eventual relação com as demais movimentações financeiras sob investigação.
O senador Flávio Bolsonaro criticou a operação e acusou o ministro Flávio Dino de interferir na disputa eleitoral. O candidato do PL também negou que a produção da cinebiografia tenha utilizado dinheiro público.

Defesa tentou transferir investigação de Flávio Dino para André Mendonça
A existência de dois procedimentos relacionados a Dark Horse também provocou uma disputa sobre a competência para conduzir as investigações no Supremo Tribunal Federal.
Entre os dias 3 e 29 de julho, a defesa de Flávio Bolsonaro apresentou quatro tentativas de transferir para André Mendonça o caso que estava sob responsabilidade de Flávio Dino.
Os advogados argumentaram que, como Mendonça já conduzia investigações relacionadas ao financiamento da cinebiografia, o ministro também deveria assumir a apuração sobre as emendas parlamentares.
O objetivo apresentado pela defesa era concentrar os procedimentos sob a relatoria de um mesmo magistrado, diante da existência de possíveis conexões entre os fatos investigados.
As apurações, entretanto, permaneceram divididas em duas frentes, com objetos distintos: uma investiga as transferências privadas ligadas a Daniel Vorcaro e a atuação de Flávio Bolsonaro. A outra examina a destinação de recursos públicos a entidades relacionadas à produtora.

Brasil 247


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