Flávio Bolsonaro fica isolado após 75% dos eleitos do pelo ignorarem carta golpista


A tentativa de Flávio Bolsonaro (PL) de contestar a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2026 enfrenta resistência dentro do próprio partido. Dos 155 políticos eleitos pelo PL para o Congresso Nacional e os governos estaduais, 117, o equivalente a 75%, não manifestaram apoio à carta divulgada pelo senador, na qual ele sustenta acusações de fraude eleitoral sem apresentar provas e reivindica a Presidência da República.
Os números fazem parte de um levantamento publicado pelo jornal O Globo neste sábado (31), que examinou manifestações públicas de parlamentares e governadores eleitos pela legenda após o segundo turno. Apenas 38 políticos, aproximadamente 25% do total, compartilharam ou defenderam o documento. O resultado evidencia o isolamento político de Flávio após sua fuga para os Estados Unidos e revela a preocupação de dirigentes partidários com os efeitos de uma nova ofensiva contra o sistema eleitoral brasileiro.
A resistência ocorre em meio às articulações da direção do PL para reorganizar a oposição ao governo Lula. Integrantes da legenda avaliam que a insistência em acusações infundadas de fraude pode prejudicar a atuação parlamentar, dificultar alianças e provocar novas reações institucionais. Apesar da baixa adesão à carta, a maioria dos eleitos pelo partido também evitou reconhecer publicamente a vitória do presidente.

Maioria dos eleitos evita apoiar documento de Flávio
O levantamento considerou as publicações em redes sociais de 121 deputados federais, 28 senadores e seis governadores eleitos pelo PL. Entre os 155 políticos analisados, três em cada quatro não compartilharam nem defenderam publicamente a carta divulgada pelo candidato derrotado.
A ausência de apoio, entretanto, não significa necessariamente reconhecimento da legitimidade do resultado eleitoral. Segundo a pesquisa, 86% dos eleitos pelo partido não reconheceram publicamente a vitória de Lula. Nesse grupo estão tanto políticos que questionaram o resultado quanto aqueles que preferiram não se manifestar.
A distinção revela uma divisão na legenda. Enquanto uma parcela dos eleitos mantém o discurso de contestação, outros evitam se associar às acusações de Flávio, sem necessariamente adotar uma posição pública favorável ao reconhecimento do resultado.
A carta foi divulgada depois que o senador deixou o Brasil, descumprindo uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus passaportes. No documento, Flávio chegou a se apresentar como o “verdadeiro presidente eleito”, embora tenha sido derrotado por Lula por uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos.
Pressionado por aliados, o senador posteriormente substituiu a expressão por “líder do Brasil”, mas manteve as alegações de irregularidades na votação, sem apresentar elementos que comprovassem fraude.

Parlamentares reconhecem vitória de Lula e rejeitam contestação
Entre os integrantes do PL que reconheceram publicamente o resultado eleitoral estão o senador Marcio Bittar (AC) e os deputados André Fernandes (CE), Major Vitor Hugo (GO) e Rosangela Moro (PR).
Ex-líder do governo Jair Bolsonaro na Câmara, Major Vitor Hugo destacou que a diferença de votos e o reconhecimento da eleição pelas instituições brasileiras e por governos estrangeiros tornam extremamente improvável qualquer mudança no resultado.
“Nós somos 60 milhões de brasileiros que votaram no Flávio, somos uma grande bancada. O TSE e vários chefes de Estado já reconheceram a eleição, não importa o que você ou eu achamos. Foram mais de quatro milhões de votos de diferença e é muito difícil haver uma reversão deste resultado”, declarou.
O deputado André Fernandes também rejeitou a possibilidade de alimentar uma nova ofensiva contra as urnas eletrônicas. Embora tenha criticado a campanha adversária, afirmou que não pretende participar de questionamentos sobre a legitimidade da votação.
“O resultado foi esse. Eu não vou aqui falar sobre urna, golpe, não vou falar sobre isso. Porque eu sei que muita gente votou sim no Lula porque acreditou em mentiras, em promessas vazias que não serão cumpridas”, afirmou.
As declarações representam um afastamento da estratégia defendida por Flávio e sinalizam que parte da bancada pretende concentrar sua atuação na oposição parlamentar, em vez de insistir na tentativa de deslegitimar a eleição presidencial.

Nikolas, Magno Malta e Gayer estão entre os apoiadores
Apesar da resistência majoritária, Flávio mantém o apoio de integrantes influentes do bolsonarismo. Entre os políticos que endossaram a carta estão os senadores Magno Malta (ES) e Jorge Seif (SC), o senador eleito Gustavo Gayer (GO) e os deputados José Medeiros (MT) e Nikolas Ferreira (MG).
Gayer divulgou um vídeo lendo o documento e sustentou que o resultado eleitoral seria matematicamente impossível, embora não tenha apresentado comprovação de fraude. Magno Malta também questionou a vitória de Lula.
A deputada Magda Mofatto (GO) foi uma das defensoras mais enfáticas da manifestação. Além de compartilhar a carta, incentivou sua circulação dentro e fora do país.
“Essa carta estará nos livros de história e é um relato sincero e puro do momento que vivemos em nosso país”, escreveu.
Nikolas Ferreira, por sua vez, comentou o documento, mas admitiu que uma eventual anulação da eleição seria praticamente inviável.
“Conhecendo o nosso país, a chance de anular é praticamente nula, então temos que seguir”, afirmou.
A manifestação do deputado mineiro indica que mesmo entre os aliados de Flávio há divergências sobre a viabilidade de insistir na contestação do resultado.

Valdemar critica carta e tenta reorganizar oposição
A resistência à estratégia de Flávio também alcançou a direção nacional do PL. O presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, criticou publicamente a divulgação da carta na quinta-feira (29), após visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo Valdemar, o documento não recebeu aprovação do partido. A direção pretende priorizar a reorganização da oposição e a atuação das bancadas no Congresso Nacional.
A preocupação dos dirigentes está relacionada ao risco de que novas declarações do senador aprofundem o desgaste político da legenda. A avaliação interna é que a continuidade das acusações de fraude, sem elementos concretos, pode comprometer negociações com outras forças políticas.
O partido tenta ampliar sua influência tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado, aproveitando o tamanho de suas bancadas eleitas. Nesse cenário, dirigentes consideram que uma estratégia centrada na contestação eleitoral pode dificultar a construção de acordos e a definição de uma agenda legislativa.
A posição de Valdemar também evidencia o distanciamento entre a direção partidária e Flávio em relação à condução política após a derrota presidencial.

Flávio busca apoio de Trump após fuga para os Estados Unidos
Enquanto enfrenta resistência no PL, Flávio Bolsonaro prepara uma nova etapa de sua articulação internacional. Depois de desembarcar em Miami, na Flórida, na quarta-feira (28), o senador pretende viajar a Washington na próxima semana para estabelecer contatos com integrantes do governo de Donald Trump.
Segundo O Globo, sua entrada nos Estados Unidos ocorreu com o apoio de integrantes dos governos Trump e Javier Milei, presidente da Argentina.
Um dos principais objetivos do senador seria conseguir uma reunião com o secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, apontado como participante das negociações que viabilizaram sua entrada no país.
Aliados também mencionam a possibilidade de encontros com representantes do Departamento do Tesouro, comandado por Scott Bessent, e parlamentares do Partido Republicano.
Uma audiência com o próprio Trump chegou a ser considerada, mas interlocutores de Flávio avaliam que seria difícil concretizá-la neste momento.
O senador pretende utilizar os contatos estabelecidos durante a campanha presidencial para ampliar sua interlocução com integrantes do governo estadunidense.
A iniciativa ocorre em um momento de enfraquecimento de sua posição dentro do PL. A baixa adesão à carta, somada às críticas da direção partidária e ao reconhecimento da vitória de Lula por integrantes da própria legenda, demonstra as dificuldades enfrentadas por Flávio para transformar sua contestação eleitoral em uma posição unificada da oposição.
Embora permaneça apoiado por nomes importantes do bolsonarismo, o senador não conseguiu mobilizar a maioria dos representantes eleitos pelo partido em torno de sua ofensiva contra o resultado das urnas.

Foto: Carlos Moura/Agência Senado
Brasil 247


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