A fuga de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), dois dias depois de sua derrota na eleição presidencial, ocorre em meio a investigações criminais que envolvem suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Nesta terça-feira (27), a Polícia Federal cancelou os passaportes do senador após ele deixar de cumprir uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia proibido sua saída do Brasil.
O episódio ocorre em um momento particularmente delicado para o senador. Além de ter perdido a disputa presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio enfrenta investigações no STF e deixará o Senado em 31 de janeiro de 2027, quando termina seu mandato.
Entre os procedimentos estão apurações relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, e às operações financeiras envolvendo o advogado Willer Tomaz. Há ainda investigações decorrentes da CPI da Covid, um inquérito por suspeita de calúnia contra Lula e desdobramentos judiciais do antigo caso das rachadinhas.
Investigação sobre bets levou à retenção dos passaportes
A determinação que Flávio descumpriu foi tomada no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz.
A Polícia Federal apura possíveis operações financeiras realizadas por meio de empresas ligadas ao setor de apostas. Entre os elementos examinados estão movimentações bancárias, comunicações e vínculos entre os investigados.
Um dos pontos investigados é a possível relação de Flávio com uma conta vinculada à Alcazar Holdings, empresa associada a Willer. A suspeita surgiu a partir de registros encontrados pelos investigadores. O Santander, entretanto, informou ao STF que o senador não estava cadastrado como usuário da conta, segundo reportagem da CNN Brasil.
A informação do banco contraria uma das suspeitas iniciais da PF, mas não encerra o inquérito, que também examina outros elementos.
Na segunda-feira (26), Moraes proibiu Flávio de deixar o país, determinou a entrega de seus passaportes e impediu que ele mantivesse contato com Willer.
O senador não apresentou os documentos dentro do prazo estabelecido. Diante do descumprimento, a Polícia Federal cancelou os passaportes e passou a investigar a possibilidade de que ele já tivesse deixado o território brasileiro.
Caso a saída do país seja confirmada, o STF terá de avaliar as circunstâncias do deslocamento, especialmente se ocorreu depois da intimação judicial. O descumprimento de medidas cautelares pode justificar a imposição de restrições adicionais, inclusive prisão preventiva, desde que estejam presentes os requisitos previstos em lei.
Banco Master e o financiamento de Dark Horse
Outra investigação que envolve diretamente Flávio está sob responsabilidade do ministro André Mendonça.
O inquérito apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas ao financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal investiga a participação de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, na obtenção e movimentação de recursos destinados à produção. Mensagens e áudios reunidos pelos investigadores indicam que Flávio participou de conversas sobre o financiamento do projeto.
O senador foi incluído formalmente na investigação em julho deste ano. A apuração procura esclarecer a origem dos recursos, o caminho percorrido pelo dinheiro e a eventual participação dos envolvidos em operações financeiras ilícitas.
Durante a campanha presidencial, Flávio admitiu ter procurado Vorcaro para discutir o financiamento do filme, mas apresentou os contatos como uma tentativa de obter investimento privado.
O caso ganhou um novo desdobramento com a homologação, por Mendonça, da colaboração premiada de Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, proprietário da Entre Investimentos e Participações.
A empresa aparece na investigação como possível intermediária de movimentações financeiras relacionadas à produção. A homologação do acordo permite que as informações fornecidas pelo colaborador sejam utilizadas para orientar novas diligências, mas suas declarações precisam ser corroboradas por outros elementos de prova.
Existe ainda uma investigação distinta, sob relatoria de Flávio Dino, sobre suspeitas de utilização irregular de emendas parlamentares em projetos e empresas ligados ao filme. A apuração resultou na Operação Make Up e envolve, entre outros personagens, o deputado Mario Frias (PL-SP).
A existência dessa segunda investigação não significa, por si só, que Flávio seja formalmente investigado nela.
Calúnia contra Lula e investigação da CPI da Covid
Flávio também é investigado no STF por suspeita de calúnia contra o presidente Lula. O procedimento, registrado sob o número 5.045, tem Alexandre de Moraes como relator e examina declarações publicadas pelo senador nas redes sociais.
Outra frente decorre das conclusões da CPI da Covid. Em setembro de 2025, Flávio Dino determinou a abertura de investigação sobre fatos apontados pela comissão parlamentar, que havia recomendado o indiciamento de Flávio por incitação ao crime.
A investigação da CPI possui objeto mais amplo e envolve diferentes personagens. A recomendação de indiciamento feita pela comissão não equivale a uma denúncia criminal nem a uma condenação.
Rachadinha teve investigação encerrada, mas voltou à Justiça
O histórico judicial do senador também inclui o caso das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), no qual foram investigadas suspeitas de recolhimento de parte dos salários de funcionários de seu antigo gabinete.
A investigação criminal contra Flávio foi arquivada depois que decisões judiciais invalidaram provas utilizadas no procedimento. O encerramento não decorreu de uma sentença absolutória sobre o mérito das acusações.
O caso, entretanto, ainda possui desdobramentos. Uma ação civil contra antigos assessores continua em tramitação na Justiça do Rio de Janeiro.
Em setembro, uma reportagem do ICL Notícias sobre um cofre utilizado por Flávio e Carlos Bolsonaro motivou um pedido de reabertura da investigação criminal, apresentado pelo deputado Rui Falcão (PT-SP) e pelo Grupo Prerrogativas.
A representação solicita novas diligências sobre movimentações financeiras e operações imobiliárias relacionadas ao período investigado. Não há confirmação de que o pedido tenha sido acolhido.
Derrota eleitoral amplia consequências das investigações
A derrota presidencial alterou o cenário político e judicial de Flávio. Caso tivesse sido eleito, ele passaria a contar com a proteção constitucional que impede a responsabilização criminal do presidente da República, durante o mandato, por atos estranhos ao exercício de suas funções.
Sem a vitória, o senador continuará sujeito ao andamento das investigações. Seu mandato parlamentar termina em 31 de janeiro de 2027, quando deixará de contar com o foro decorrente do exercício do cargo. A permanência de determinados procedimentos no STF, entretanto, dependerá da relação dos fatos investigados com suas funções parlamentares e das regras de competência estabelecidas pelo tribunal.
A situação se agravou com o descumprimento da ordem de entrega dos passaportes. Na segunda-feira, depois de ser intimado pela Polícia Federal, Flávio afirmou publicamente que cumpriria a determinação e negou qualquer intenção de deixar o Brasil. Menos de 24 horas depois, o prazo terminou sem que os documentos fossem apresentados.
A Polícia Federal comunicou o descumprimento ao STF e passou a verificar informações sobre uma possível saída do senador pela fronteira com a Argentina. Até a tarde desta terça-feira, não havia registro oficial de sua saída do território brasileiro.
Foto: AP – Eraldo Peres
ICL Noticias